Wearables: Salvação para a Saúde ou Gatilho para a Ansiedade? O Que Dizem os Médicos

A febre dos wearables, dispositivos que monitoram nossa saúde diretamente do pulso, dedo ou até da pele, continua a crescer. Enquanto empresas como Apple, Samsung e Oura apostam em anéis e pulseiras cada vez mais sofisticados, a comunidade médica avalia os reais benefícios e os potenciais perigos desses gadgets. A questão que paira é: eles são aliados valiosos para a saúde ou estão nos tornando paranoicos?

O Potencial dos Wearables na Detecção Precoce

Para o cardiologista Carlos Eduardo Suaide Silva, da Dasa, a utilidade clínica de alguns dados fornecidos por wearables é inegável. Frequência cardíaca e eletrocardiograma (ECG), presentes na maioria dos smartwatches, podem identificar tendências de repouso, avaliar a resposta ao exercício e, crucialmente, detectar arritmias como a fibrilação atrial, muitas vezes silenciosa. Um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology reforça esse ponto: um ensaio clínico com idosos de alto risco para AVC mostrou que o uso de Apple Watch detectou cerca de quatro vezes mais casos de arritmia do que o acompanhamento médico convencional, sendo que 57% dos diagnosticados não apresentavam sintomas.

Roberto Gallart, gerente comercial, é um exemplo vivo desse benefício. Um alerta de seu smartwatch durante um treino na academia o levou a descobrir obstruções significativas em suas artérias, uma descoberta que, segundo ele, pode ter salvado sua vida.

Dados com Limitações e Interpretação Crucial

No entanto, nem todos os dados coletados por wearables possuem a mesma relevância clínica. Variabilidade da frequência cardíaca, saturação de oxigênio e qualidade do sono, embora populares, são considerados de utilidade mais limitada por Suaide Silva, pois são “altamente variáveis e difíceis de interpretar isoladamente”. A saturação de oxigênio só é digna de atenção quando consistentemente baixa, e o monitoramento do sono, embora útil para criar rotinas, não substitui diagnósticos médicos para condições como apneia do sono. A medição da pressão arterial por wearables, reforça o médico, “não substitui o aparelho de pressão”.

O monitoramento contínuo de glicose, antes restrito a diabéticos, agora atrai atletas e adeptos do biohacking. Contudo, a comunidade médica ainda tem ressalvas sobre a interpretação dessas variações em indivíduos sem diabetes, indicando a necessidade de mais estudos e consenso.

O Reverso da Moeda: Hipervigilância e Ansiedade de Saúde

O lado sombrio dos wearables reside no potencial de gerar ansiedade e hipervigilância. A psiquiatra Camila Espínola, do Hospital Quali Ipanema, observa um aumento de pacientes que chegam às consultas com impressões de tela de seus dispositivos, preocupados com pequenas flutuações consideradas normais pelo corpo humano. Essa checagem compulsiva pode criar um ciclo vicioso: alívio momentâneo seguido pela necessidade de verificar novamente, exacerbando quadros de ansiedade de saúde.

“O problema ocorre quando o dispositivo passa a ser utilizado como uma forma de buscar constantemente confirmação de que a pessoa está saudável”, explica Espínola. Para aqueles predispostos à ansiedade, o monitoramento pode intensificar a preocupação com alterações fisiológicas mínimas, gerando mais malefícios do que benefícios.

Wearables: Aliados com Responsabilidade

Em suma, os wearables não são nem vilões, nem soluções mágicas. São ferramentas poderosas que, quando utilizadas com critério e sob orientação médica, podem ser aliadas valiosas na detecção precoce de problemas de saúde, especialmente arritmias silenciosas. Contudo, a interpretação dos dados coletados exige cautela e conhecimento. Com o mercado em constante expansão e a tecnologia cada vez mais precisa, a responsabilidade final de entender e agir sobre as informações continua sendo humana – e, idealmente, em parceria com um profissional de saúde.

Fonte: www.seudinheiro.com

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