O mercado tentou reagir, mas o alívio foi passageiro. O anúncio de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã retirou o gatilho imediato do pânico, mas o acordo se mostra tão robusto quanto uma folha de papel. Em menos de 24 horas, relatos de interrupção no tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz ressurgiram, em meio a ataques de Israel ao Líbano. Mesmo que as tensões militares cessem temporariamente, as cicatrizes econômicas permanecem: cadeias de suprimentos rompidas, um petróleo resiliente à estabilidade e o fantasma de uma inflação global que força os juros a permanecerem em patamares restritivos por mais tempo do que o desejado pelos investidores.
Legado inflacionário e fragmentação global
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, avalia que as duas semanas de cessar-fogo abrem espaço para alguma normalização, mas não representam o fim do conflito ou a ausência de tensões. “Isso não vai acabar aqui. Podemos ter novos episódios dessa guerra. E um outro ponto a ser observado é o legado desse conflito, uma ‘sujeira’ que teremos que limpar nos próximos meses, a exemplo da herança inflacionária e do prêmio de risco geopolítico. Isso tudo veio para ficar, é uma nova realidade, de um mundo mais fragmentado”, afirma.
A principal pressão da guerra veio do petróleo, que flertou com os US$ 120 o barril, um dos maiores choques de preços da commodity da história. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da produção global de petróleo, está no centro do conflito. “A direção futura dos preços e, consequentemente da inflação, dependerá da transformação das negociações de cessar-fogo em um acordo duradouro, e em uma normalização sustentada dos fluxos pelo estreito, com a volatilidade persistindo durante as conversas”, disse Ewa Manthey, estrategista em commodities do ING Group.
As declarações do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de que o cessar-fogo não é o fim da campanha militar, e as acusações iranianas de violação da trégua, sinalizam a continuidade da instabilidade. O fim da guerra não significa o fim dos problemas econômicos; a fragilidade do acordo mantém o prêmio de risco elevado e a logística global sob estresse.
Juros altos por mais tempo: O dilema dos bancos centrais
Para os bancos centrais, o cenário se traduz em enfrentar a resiliência da inflação e a necessidade de manter os juros altos. Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que cada 10% de alta nos preços da energia adiciona cerca de 0,5 ponto percentual à inflação global. Com choques de 40% a 70%, isso pode significar de 2 a 3,5 pp adicionais de inflação mundial, o suficiente para paralisar os ciclos de corte de juros do Federal Reserve (Fed) e do Banco Central Europeu (BCE).
Nos EUA, mesmo antes do choque energético, o espaço para cortes adicionais de juros já era limitado. A XP revisou sua projeção para o petróleo Brent de US$ 60 para US$ 90 o barril para 2026 e para US$ 80 em 2027, indicando que o retorno a preços pré-guerra é improvável. Na zona do euro, a dependência de petróleo e gás importados torna a situação mais delicada, com risco de transmissão rápida dos custos energéticos para salários e serviços.
Brasil: Vulnerabilidade a fertilizantes e juros elevados
O Brasil se encontra em uma posição singular: exportador de petróleo, o que seria benéfico, mas altamente vulnerável à alta no preço de fertilizantes e a intervenções políticas. O país é o maior importador mundial de fertilizantes, com quase metade dessa importação transitando pelo Estreito de Ormuz. Uma crise prolongada pode elevar os custos dos insumos agrícolas em 30% a 50%, ameaçando o agronegócio e pressionando o IPCA pela via de alimentos.
No câmbio, o real enfrenta pressão dupla: commodities altas favorecem exportadores, mas a aversão global ao risco e a incerteza nos emergentes favorecem o dólar. A inflação importada via energia e fertilizantes pode forçar uma pausa precoce ou até uma reversão no ciclo de corte da Selic. A XP elevou sua projeção para o IPCA de 2026 de 3,8% para 4,8%, refletindo os efeitos do aumento do custo de combustíveis e energia. A projeção para a Selic ao final de 2026 foi elevada de 12,75% para 13,50%.
Estratégias para o investidor em tempos de incerteza
Apesar da fragilidade do cessar-fogo e da persistência das “sujeiras” da guerra na economia global, o investidor tem caminhos. Fábio Murad, da Ipê Avaliações, sugere que ETFs ganham relevância por oferecerem diversificação, liquidez e eficiência de custo, permitindo exposição a setores beneficiados como energia e commodities, além de estratégias defensivas e globais.
Gabriel Padula, do Grupo Everblue, destaca os multimercados com gestão ativa e proteção em ativos como dólar, juros e commodities. Fundos que investem em crédito estruturado, como FIDCs, também ganham espaço por estarem ligados à economia real e oferecerem maior estabilidade. A combinação de multimercados bem geridos e crédito estruturado surge como uma estratégia equilibrada em um ambiente ainda incerto, com volatilidade persistente impactando inflação e juros.
Fonte: www.seudinheiro.com
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